A terapia-alvo para câncer de mama em pacientes idosas

Publicado em: 23/10/2019 - 15:10:18

 

Publicado no periódico Journal of Geriatric Oncology, artigo analisa os tratamentos disponíveis e a importância de haver mais ensaios clínicos para planejar o melhor caminho

Idosas compõem uma fatia relevante entre as mulheres com câncer de mama. Na Inglaterra, por exemplo, 50% das pacientes diagnosticadas têm 65 anos ou mais. 

E é natural que esses índices de envelhecimento da população cresçam mundialmente. No entanto, poucos estudos clínicos apresentam dados sobre a população idosa, o que dificulta o planejamento terapêutico. Algo que motivou o artigo de revisão narrativa Targeted Therapy for Breast Cancer in Older Patients (Terapia-Alvo para Câncer de Mama em Pacientes Idosas).
 

Medo afasta estudos 

Segundo Noam Pondé, oncologista clínico do A.C.Camargo Cancer Center e autor principal do artigo, que foi publicado no periódico Journal of Geriatric Oncology, idosos costumam participar apenas de estudos que existem especificamente para o governo liberar um determinado medicamento, e, mesmo nessa situação, em pequenos números.

“Entre as razões de haver poucos estudos está o medo, tanto da paciente em participar como do médico em indicar”, afirma Noam Pondé. “Já a indústria farmacêutica e as universidades têm medo que as pacientes  sofram toxicidades e o remédio pareça mais tóxico do que de fato é”, explica o médico. 

 

Terapia-alvo versus químio 

A fim de ajudar oncologistas a tomar decisões de tratamento adequadas para as pacientes mais velhas, esse artigo revisa as evidências disponíveis sobre a eficácia e os efeitos colaterais de drogas alvo, como, por exemplo, o trastuzumabe ou o ribociclibe,  aprovadas para uso no câncer de mama mundo afora.

Drogas estas que atingem diretamente moléculas específicas, essenciais para o tumor, são conhecidas como terapia-alvo. Elas costumam ser mais eficazes e menos tóxicas que a quimioterapia.

“A meta do artigo foi repassar todas essas terapias-alvo, que são tendência no tratamento de câncer ante a quimioterapia, que em alguns casos pode ser abandonada”, conta o Dr. Noam Pondé. 

 

Sensatez no tratamento

Idosos guardam especificidades tanto em tumores precoces como nos avançados: tendem a ser mais debilitados porque têm outras doenças, como pressão alta, diabetes, Alzheimer, fora os casos em que sofreram infarto e derrame.

“Temos de levar isso em conta quando estamos desenhando o tratamento”, ressalta Noam Pondé. 
No caso de um tumor precoce em uma mulher jovem, leva-se em conta que ela tenha uma espectativa de vida prolongada, ao passo que uma paciente com o mesmo tumor aos 75 anos, por exemplo, tem uma expectativa mais curta. 

“Se, baseado nos critérios clássicos, o tratamento indicado para essas mulheres seria a quimioterapia, tenho de pensar que pode não valer a pena fazer essa idosa passar por todo o estresse mental e físico de uma químio, pois talvez ela tenha outras doenças comparativamente mais importantes”, analisa o médico. “O importante é entender as prioridades da paciente idosa dentro do seu contexto", acrescenta.

 

Resultados

As drogas analisadas como terapia-alvo foram: trastuzumabe, lapatinibe, T-DM1, pertuzumabe, neratinibe, palbociclibe, bevacizumabe, ribociclibe, abemaciclibe, everolimo, olaparibe e talazoparibe.

A boa notícia é que grande parte foi bem tolerada pelas idosas. O trastuzumabe, por exemplo, mostrou pouca toxicidade. “Essencialmente, um pouco de toxicidade cardíaca, além de raramente ocorrer diarreia e inflamação na pele”, diz o Dr. Pondé. “Temos a opção subcutânea de trastuzumabe e pertuzumabe combinados que ainda não está disponível no Brasil, mas estará num futuro próximo”.

 

Conclusões

“Dá para dizer que todos os remédios explorados no artigo são, na média, mais tóxicos para uma mulher de 75 anos do que seria para uma jovem com a mesma doença, é um panorama global”, avalia Noam Pondé.

Para avançar no aumento das opções disponíveis para o tratamento de pacientes idosos, são essenciais ensaios direcionados a essa população. 

É preciso testar mais os medicamentos e fazer um acompanhamento adequado durante o estudo, integrar a avaliação geriátrica para obter uma melhor compreensão.

Para conferir o artigo na íntegra (em inglês), clique aqui

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