Tudo sobre células CAR-T

Em breve, estará disponível para pacientes do Brasil uma opção inovadora de tratamento contra o câncer.

Conhecida como células CAR-T, um dos medicamentos dessa terapia foi aprovado pela Anvisa em 23 de fevereiro e representa uma nova era na medicina. Aguardado há muitos anos, o tratamento com células CAR-T é uma nova forma de tratar alguns tipos de câncer por meio da reprogramação das células de defesa do corpo.

É um medicamento único, com o máximo de personalização.

O início em breve deste tratamento traz benefícios para os pacientes, ao tangibilizar novas possibilidades de tratamento e até mesmo um potencial de cura para doenças até então sem opções terapêuticas; e para a sociedade, ao propiciar que pacientes, familiares e/ou cuidadores tenham ganhos na qualidade de vida, voltando a trabalhar e buscar suas aspirações pessoais. 

Confira abaixo como é feito esse tratamento, quais tipos de tumor podem ser tratados, os possíveis efeitos colaterais e outras respostas para dúvidas comuns.
 

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 Células CAR-T

“CAR” é um acrônimo em inglês para chimeric antigen receptor (em português, receptor quimérico de antígeno). O “T” refere-se ao linfócito T, um tipo de célula do sistema imunológico que consegue reconhecer antígenos existentes na superfície celular de agentes externos ou internos infecciosos e de tumores, produzindo anticorpos para combater tais invasores. Ou seja, atua como defesa do corpo. Então, uma célula CAR-T é um linfócito T que passou por uma modificação genética.

Resumidamente, a terapia por células CAR-T é feita a partir da coleta de células T do sistema imunológico. Depois, é preciso levar o material a uma central especializada – todas até o momento são fora do Brasil –, fazer ali a modificação genética e trazer de volta, para então infundir no paciente. Essa modificação genética reprograma a célula para reconhecer e combater o tumor. Dessa forma, o próprio organismo do paciente torna-se um tratamento contra o câncer. Confira no vídeo abaixo.

 

 

 

O uso das células CAR-T tem mostrado importantes resultados, representando uma nova perspectiva no tratamento de alguns tipos de câncer que, até então, não tinham opções eficazes de terapia. É uma opção de tratamento transformadora com respostas potencialmente duradouras e até mesmo curativas.

Atualmente, as duas medicações desenvolvidas poderão ser utilizadas para pacientes com linfoma difuso de grandes células B (tipo de linfoma não-Hodgkin), leucemia linfoide aguda, leucemia linfoblástica aguda e mieloma múltiplo. 

Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas do A.C.Camargo
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Podemos dizer que a célula CAR-T é o maior avanço no tratamento do câncer dos últimos anos e pode se estabelecer como um dos pilares do combate à doença ao lado de quimioterapia, cirurgia e radioterapia.
Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas do A.C.Camargo

A terapia é feita com dose única, por meio de infusão intravenosa.

Dentro de sete dias após a infusão das células CAR-T, pode haver uma reação inflamatória, sinal de que os linfócitos modificados estão se reproduzindo dentro do organismo e induzindo a liberação de substâncias para eliminar o tumor. Nesse momento, além de febre, pode haver queda importante da pressão arterial e eventual necessidade de internação em unidade de terapia intensiva (UTI).

Nas primeiras semanas após infusão das células CAR-T, o paciente pode apresentar alguns sintomas neurológicos, que vão desde um quadro mais leve de confusão mental até a presença de crises convulsivas. Porém, todos estes efeitos colaterais podem ser controlados quando o paciente faz seu tratamento em um centro especializado e com equipe treinada. 

Atualmente, existem dois medicamentos aprovados pela Anvisa para uso no Brasil. A aprovação da Anvisa é apenas uma parte do processo de disponibilização do medicamento no país. No caso do medicamento aprovado, a próxima etapa é a precificação pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão interministerial do Governo Federal responsável pela regulação econômica do mercado de medicamentos no Brasil.

Somente após a regulamentação do CMED, os medicamentos com células CAR-T poderão ser comercializados para o tratamento contra o câncer no Brasil.
 

Ainda não. Existem etapas de aprovação para inclusão no ROL de procedimentos obrigatórios da ANS, que devem disponibilizar o procedimento com cobertura completa pelas operadoras de saúde. A expectativa é de que, em alguns meses, o tratamento seja coberto e disponibilizado pelos planos de saúde.

A terapia com células CAR-T ainda é muito cara, pois envolve a logística de levar os infócitos T para serem reprogramados nos EUA, e, depois, voltarem ao Brasil e ser infundido no paciente, com um custo aproximado de US$ 400.000. 

O alto custo desta terapia reflete décadas de pesquisas científicas, investimentos em cadeia logística e manufatura em larga escala, bem como custos diretos e indiretos com capacitação de centros de referência, hospitais e profissionais de saúde.

Mas, existem estudos que apresentam eventuais saídas para uma aplicação mais ampla da terapia com células CAR-T, a fim de expandir a imunoterapia com CAR para um número maior de pacientes, ganhando escala e reduzindo custos, o que tem potencial para favorecer especialmente países de baixa renda.
 

Não. Cada tratamento é único e feito exclusivamente para um determinado paciente. As células T de um paciente são reprogramadas de forma personalizada, com dose preparada de acordo com seu peso.  

A quimioterapia é um tipo de tratamento que consiste na aplicação de medicamentos para destruir as células que formam os tumores, atuando em diversas etapas do metabolismo celular.

Já a imunoterapia age estimulando o sistema imunológico do paciente a atacar as células do câncer. 

O tratamento com células CAR-T é uma modalidade da imunoterapia, que utiliza células de defesa geneticamente modificadas e reprogramadas em laboratório para destruir os tumores. 
 

O A.C.Camargo Cancer Center foi um dos centros mundiais especializados no tratamento do câncer escolhidos para fazer um dos estudos clínicos de um dos novos medicamentos com células CAR-T.

Em relação ao medicamento já aprovado pela Anvisa, é uma das poucas instituições no Brasil selecionadas nesse primeiro momento e habilitada para este tipo de terapia.

Foram feitos diversos treinamentos da equipe para o processo de aférese, manuseio, recebimento e armazenamento de células dos pacientes para esta terapia específica. Os processos de qualidade também foram verificados para garantir a adesão aos requisitos necessários para fazer a terapia com segurança.