Interações medicamentosas:
avanços na investigação
Interações
medicamentosas:
avanços na investigação

Publicado em periódico do European Institute of Oncology, artigo analisa impactos de se associar inibidores da bomba de prótons ao tratamento

 

Interações medicamentosas representam um risco relativamente alto para pacientes oncológicos. Estima-se que cerca de 30% deles estão expostos a combinações de drogas potencialmente perigosas. O verdadeiro impacto dessas interações no tratamento do câncer, no entanto, ainda é, em linhas gerais, um mistério.

Essa foi a motivação para a publicação do artigo Drug Interactions and Oncological Outcomes: a Hidden Adversary (Interações Medicamentosas e Resultados Oncológicos: um Adversário Oculto), um trabalho veiculado no ecancermedicalscience, periódico do European Institute of Oncology.

 

Inibidores da bomba de prótons

Esse risco das interações se dá porque pacientes oncológicos tomam muitos medicamentos durante o tratamento, que vão desde agentes citotóxicos aos remédios ministrados para tratar comorbidades. Sem contar que os parâmetros desses medicamentos podem estar alterados porque muitas vezes os pacientes estão sofrendo com mucosite e diarreia – resultado da absorção prejudicada por esvaziamento gástrico –, além de sarcopenia (perda de massa muscular) e hipoalbuminemia (deficiência de albumina).

Assim, o artigo analisou combinações que devem ser evitadas, a começar pelas associadas à capecitabina, uma droga importante. “Ela trata tumores colorretais, estomacais, neuroendócrinos e de mama”, explica Rachel Riechelmann, head da Oncologia Clínica do A.C.Camargo e autora principal do paper. 

Usados para diminuir a quantidade de ácido produzido pelo estômago e para tratar gastrite, refluxo e úlceras, os inibidores da bomba de prótons (IBPs) são uma classe de medicamentos que se mostrou arriscada quando administrada concomitantemente à capecitabina – que teve sua eficácia antitumoral prejudicada em pacientes com câncer gástrico metastático, submetidos à quimioterapia padrão com ou sem lapatinib. Esses pacientes tiveram sobrevida e controle da doença menores em comparação ao grupo que não fez uso dos inibidores.

 

Colorretal, sarcoma e pulmão

Também foram randomizados 389 pacientes com câncer colorretal (estágios II-III), que receberam o adjuvante CapeOx ou FOLFOX. O grupo tratado com CapeOx (combinação da capecitabina e da oxaliplatina) associado aos IBPs viu impactada negativamente a sobrevida livre de recidiva. O grupo que fez uso de FOLFOX, porém, não foi afetado.

Em associação com pazopanib, o uso de inibidores da bomba de prótons também se demonstrou prejudicial em uma análise com 333 pacientes com sarcoma de tecidos moles – apresentaram sobrevida livre de progressão inferior em relação a quem não tomou os inibidores ao mesmo tempo.

Outra medicação que tem sua absorção prejudicada quando administrada com os IBPs é o erlotinib, recorrente no tratamento de câncer de pulmão. 

Por fim, a conclusão é que o impacto dessas interações nos pacientes oncológicos deve ser cada vez mais investigado. “Esforços de colaboração entre instituições acadêmicas têm de existir para que haja mais estudos de alta qualidade sobre os inibidores da bomba de prótons”, conclui Rachel Riechelmann, que nesta análise contou com o auxílio de Monika Krzyzanowska, médica do Princess Margaret, um cancer center localizado em Toronto, no Canadá.