Um trabalho integrado: Jean-Bernard Durand mostra como cardiologia e oncologia têm de estar juntas

Publicado em: 07/09/2016 - 21:09:00
Notícias

Médico do MD Anderson fala sobre os efeitos tóxicos do tratamento do câncer na saúde cardíaca dos pacientes e o uso da tecnologia para controle dos pacientes.

Dr. Jean-Bernard Duran, cardiologista, professor, nasceu na Martinica, está há 17 anos no MD Anderson Cancer Center e tem como filosofia pessoal a aproximação da cardiologia com a oncologia. Não apenas porque ele trabalha em um Cancer Center, mas também pela conexão entre o tratamento do câncer e as consequências na saúde cardiológica dos pacientes. Falou sobre isso no primeiro dia do Next Frontiers to Cure Cancer – sua palestra, "Toxicidade cardíaca tardia subclínica diagnosticada durante seguimento em sobreviventes do câncer infantil", mostrava que pessoas que sobreviveram ao câncer na infância apresentavam problemas cardíacos muitos anos depois, consequência de efeitos tóxicos da quimioterapia, da radioterapia, das terapias-alvo.
 
No dia seguinte, em outra palestra, "O futuro na prevenção e detecção da cardiotoxicidade – genética, biomarcadores, novas drogas, centros de sobrevivência", Dr. Durand voltou a falar sobre como é essencial que cardiologistas trabalhem junto com oncologistas. "Os cardiologistas e os oncologistas devem atuar em equipe nos cuidados com os pacientes, tanto na prevenção quanto no desenvolvimento de novos medicamentos. Isso inclusive amplia o potencial dos tratamentos." E deu um puxão de orelha na própria categoria: "Cardiologistas não vão gostar do que eu vou falar, mas os oncologistas estão muito anos na nossa frente".

Next Frontiers: Você reforça sempre a importância desse modelo de atuação de cardiologistas e oncologistas juntos. Ainda existe resistência por parte dos especialistas a esse trabalho integrado?

Jean-Bernard Durand: Sim. É importante reforçar porque a maioria dos médicos ainda tem essa tendência de trabalhar em silêncio, cada um na sua área. Não se comunicam. É preciso quebrar essas barreiras tanto no acompanhamento dos pacientes quanto no momento de planejar o tratamento e verificar as respostas dele. Mas devemos lembrar que o sucesso da cardio-oncologia se baseia, fundamentalmente, na relação paciente/oncologista. O paciente confia no oncologista, é essa a relação determinante. 

NF: Como funciona essa integração da cardio-oncologia?

JBD: O escopo do nosso trabalho funciona assim: prevenção/mapeamento/tratamento dos pacientes com câncer que apresentam risco maior de complicações cardiovasculares. Nós, cardiologistas, precisamos identificar os efeitos adversos mais comuns tanto nos tratamentos conhecidos do câncer, como químio, rádio, quanto nas novas opções terapêuticas. E catalogar isso estatisticamente para termos uma prática baseada em evidências. Agora, os cardiologistas precisam ir fundo e entender os mecanismos implícitos, subliminares, de ação das terapias de combate ao câncer.

NF: Não é sua primeira vez no Brasil. Você poderia nos contar um pouco do que sabe ou como vê o tratamento de pacientes com câncer aqui no país? 

JBD: É minha quarta vez no Brasil e, em comparação com a primeira, vejo uma evolução incrível, mas só conheço São Paulo e Rio, então posso falar do que se faz nos tratamentos de ponta. O que eu vejo e sei por atuar com colegas brasileiros é que vocês aqui estão muito avançados em cuidados integrados. Não vejo isso em muitos países. Em 2009, aqui no Brasil foi criada a Sociedade Internacional de Cardio-Oncologia, foi a terceira sociedade dessas criada no mundo. Isso ainda existe em poucos países. Na verdade, a diversidade ajuda muito vocês, até em questões médicas. Por exemplo, no transplante de órgãos, ou de medula, vocês têm menor índice de rejeição no organismo porque têm essa mistura de raças.
 
NF: Entre os muitos temas interessantes que você abordou, está o uso da tecnologia para tratar de pacientes a distância, a telemedicina, que já usa no Texas (Dr. Durand mostrou em vídeo um aparelhinho que é implantado no coração do paciente e assim pode monitorar a atividade cardíaca diária dos pacientes com câncer, a distância, e prever os riscos e cuidados durante o tratamento do câncer). Acha que é o caminho para países como o Brasil?

JBD: Com certeza. O Texas é um estado enorme, 33 milhões de pessoas, longas distâncias, e a tecnologia a distância é o caminho para facilitar o acesso dos pacientes a tratamentos. Acho que um país imenso e com tanta diversidade como o Brasil teria de investir em telemedicina como política de saúde pública.

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