Recursos disponíveis para tratamento do câncer influenciam na definição de prioridades médicas

Publicado em: 31/07/2019 - 11:07:35
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Tumores de Cabeça e Pescoço

Artigo publicado por Luiz Paulo Kowalski, head do Núcleo de Cabeça e Pescoço do A.C.Camargo, traz os principais dilemas vividos em grande parte do Brasil e do mundo


Para fazer o tratamento contra um câncer de forma ideal é preciso ter acesso a uma instituição de saúde que conte com todos os recursos humanos, físicos e financeiros. Porém, essa não é a realidade de grande parte do Brasil e de países em desenvolvimento. Nesses casos, a definição de prioridades de pacientes e de tratamentos deixam o médico sob pressão para obter o melhor resultado mesmo com poucos recursos, expondo esses profissionais a dilemas éticos diários.

No artigo Priority Setting in Head and Neck Oncology in Low-Resource Environments (Definições de Prioridades em Oncologia de Cabeça e Pescoço em Ambientes com Poucos Recursos), Luiz Paulo Kowalski, head do Núcleo de Cabeça e Pescoço do A.C.Camargo Cancer Center, e Alvaro Sanabria, da Universidad de Antioquia (Colômbia), abordam diversos pontos que são críticos para o tratamento em ambientes com poucos recursos. Um trabalho publicado no periódico Current Opinion in Otolaryngology & Head and Neck Surgery.

O acesso ao tratamento é um dos pontos. Em cabeça e pescoço, por exemplo, o tratamento pode ser dividido em três etapas: cirurgia, terapia sistêmica (quimioterapia, terapia-alvo e imunoterapia) e radioterapia. Em grande parte das instituições com poucos recursos, médicos e pacientes terão acesso, muitas vezes, a apenas uma ou duas possibilidades terapêuticas.  

O acesso ao tratamento também pode esbarrar na distância geográfica e na “toxicidade financeira” que causa no orçamento familiar. Muitas vezes, o paciente demora horas para chegar ao local e o comprometimento do orçamento familiar pode afetar 48% das famílias, com um risco cinco vezes maior de abandono do tratamento. A cobertura das operadoras de saúde é outro fator a ser considerado, pois alguns planos oferecem quantidade limitada de serviços.

“Se o tratamento for finalmente aprovado, surgem dificuldades para agendamento de exames, por exemplo. Os tumores mais avançados necessitam de tratamento urgente, com exames laboratoriais e de imagem pré-operatórios para avaliação clínica e de estadiamento. Atrasos nesses exames têm como consequência o início tardio do tratamento, o que ocorre em quase 80% dos pacientes e diminui sua sobrevida”, explica o doutor Luiz Paulo Kowalski.  

O médico também afirma que o tratamento de câncer de cabeça e pescoço é muito caro em relação aos materiais e dispositivos utilizados, e necessita de profissionais especializados. Em instituições menos preparadas, o médico tem de lidar com a escassez de profissionais e recursos e decidir o que é prioritário para completar o tratamento.

“A maioria das diretrizes e protocolos de tratamento vem de países desenvolvidos e com recursos. A adaptação dessas diretrizes para ambientes com poucos recursos é necessária para oferecer o melhor tratamento, sem comprometer a estabilidade e a sobrevivência dos sistemas de saúde. Dessa forma, também se torna essencial investir em disseminação do conhecimento, educação e prevenção, para que a população saiba reconhecer precocemente os sintomas da doença e buscar tratamento enquanto ainda é cedo, quando as possibilidades são maiores, mesmo diante de um cenário adverso”, finaliza o doutor Kowalski.

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