Combinar medicamentos se mostra eficaz para pacientes com câncer de pulmão que não respondem às terapias disponíveis

Publicado em: 17/05/2019 - 21:05:00
Pesquisa
Tratamento
Genética
Tumores do Pulmão e Tórax

Na conferência Magna do Next Frontiers to Cure Cancer na sexta, 17, evento promovido pelo A.C.Camargo Cancer Center, o cientista Yosef Yarden, do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, falou sobre estudos que buscam tratamentos mais eficazes para os pacientes com tumores malignos de pulmão, que é a maior causa de morte por câncer no mundo 

Os tumores de pulmão representam a maior causa de morte por câncer no mundo. Em 2018, segundo o levantamento Globocan, do IARC/OMS, foram registrados 1,7 milhão de mortes por esta doença. Dentre os gargalos estão o diagnóstico que, na maioria dos casos, ocorre em fase avançada e a baixa eficácia das terapias disponíveis. O cientista Yosef Yarden, do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, mostrou que há caminhos para reverter esse cenário. Esse foi o tema de sua conferência magna na 4ª edição do Next Frontiers to Cure Cancer, evento organizado pelo A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. 

Yosef Yarden atualmente está trabalhando em uma área que, acredita-se, poderá resultar em um novo cenário da terapia do câncer em um futuro próximo, que é o fornecimento simultâneo de diferentes anticorpos. Este coquetel, acredita o cientista, é um novo e promissor caminho para uma estratégia personalizada de tratamento de câncer combinada ou não com quimioterapia.

Segundo Yosef Yarden, isso se aplica ao câncer de pulmão por ser uma doença que, frequentemente, apresenta mutação em EGFR e que apresenta mecanismos de resistência. O tratamento de primeira geração para os pacientes diagnosticados com câncer de pulmão com EGFR mutado é baseada em inibidores de tirosina quinase como gefitinibe e erlotinibe. Por sua vez, um percentual significativo dos doentes apresenta a mutação EGFR/T790M, que está associada à perda de resposta à terapia. 

O osimertinibe, desenhado para tornar bons respondedores os pacientes com a mutação de resistência 790M, é um tratamento de segunda linha eficaz, mas uma parcela de pacientes apresenta uma nova mutação de resistência: C797S. Com isso, se torna necessário o desenvolvimento de uma nova terapia para esses casos. 

“A atual emergência está associada a essa mutação em EGFR/C797S, que leva a resistência às terapias de terceira geração”, ressalta Yarden. Para chegar a esse objetivo, o cientista foca seus ensaios pré-clínicos na combinação de diferentes substâncias. Dentre as metodologias em teste estão a combinação de anticorpos para EGFR, HER-2 e HER-3; a junção do cetuximabe e trastuzumabe com um inibidor de tirosina quinase, dentre outras. Resultados preliminares mostram que esses esquemas terapêuticos estão promovendo a senescência (envelhecimento das células doentes) e a apoptose (morte das células cancerosas). 

Yosef Yarden afirma que o potencial dessas substâncias se maximiza em razão da sinergia que ocorre entre elas. Por sua vez, contemporiza o cientista, embora sejam promissores os resultados quanto à superação da resistência às drogas, o possível aumento da toxicidade é uma questão que está sendo avaliada paralelamente.  

Evolução do tratamento do câncer

Durante a conferência magna, Yosef Yarden pontuou também os principais marcos relacionados à prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer. O cientista mostrou o impacto dos fatores ambientais no surgimento das mutações que se acumulam ao longo da vida e o quanto elas impactam na incidência de determinados tumores de acordo com o país. Exemplificou ao mostrar a alta prevalência de câncer de colo do útero no Brasil, de estômago no Japão, de intestino nos Estados Unidos, de pele na Austrália, dentre outros. Em seguida, Yosef Yarden trouxe uma linha do tempo da evolução das terapias voltadas para inibição dessas mutações, dentre elas as terapias-alvo e a imunoterapia. 

Referência em oncologia personalizada

Com uma trajetória focada no estudo das proteínas chamadas de fatores de crescimento, principalmente de um grupo de quatro proteínas da membrana das células denominadas como receptores dos fatores de crescimento epidérmico (EGFR), Yosef Yarden é uma importante referência das pesquisas voltadas para a oncologia personalizada. Nos seus primeiros trabalhos publicados nos anos 1980, Yosef Yarden foi um dos responsáveis por descobrir que uma proteína chamada HER-2 representava uma espécie de “sinalizador molecular” que era capaz de iniciar diversos tipos de sinalizações químicas no interior das células, fazendo com que as células se tornassem cancerosas. Este sistema sinalizador consiste em um receptor que se encontra em grandes quantidades (amplificado) em 15-30% dos tumores de mama, e também no câncer de ovário, pulmão e estômago. Estava aí a chave para o desenvolvimento dos medicamentos anti HER-2, as terapias-alvo que abriram o caminho para a chamada Era da oncologia personalizada e salvaram a vida de milhares de pacientes ao redor do mundo. 

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