Imunoterapia prolonga a sobrevida de pacientes com câncer de rim
Imunoterapia prolonga a sobrevida de pacientes com câncer de rim

A combinação de dois medicamentos imunoterápicos leva a uma taxa de resposta superior a 40% para pacientes com carcinomas de células claras, o tipo mais comum de câncer renal- um resultado sem precedente na história do combate à doença. Estudo que levou à aprovação por parte do FDA e ANVISA para ser tratamento de primeira linha para pacientes com prognóstico intermédio e ruim teve a participação do Grupo de Imuno-Oncologia Translacional do A.C.Camargo Cancer Center.
 
Foi aprovado em outubro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) o uso, em primeira linha, da combinação de nivolumabe e ipilimumabe para pacientes com câncer de rim avançado de células claras com risco de intermediário e alto de morte. Juntas, as duas imunoterapias propiciam taxas de resposta que saltaram de 27% com uso isolado de inibidor de tirosina quinase (sunitinibe, que é uma terapia-alvo) para 40% com essa combinação. Os carcinomas de células claras representam cerca de 70% a 80% dos tumores renais em adultos e, por ser uma doença silenciosa, costuma ser diagnosticada ao acaso por meio de exames de imagem.

 O estudo que levou à aprovação do bloqueio duplo de imunoterapia, o Check-Mate 214, publicado no The New England Journal of Medicine - https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1712126, contou com a participação de pesquisadores do Grupo de Imuno-Oncologia Translacional do A.C.Camargo Cancer Center. A pesquisa já havia motivado a aprovação por parte do FDA em abril deste ano. Principal investigador do A.C.Camargo no estudo Check-Mate 214, o oncologista clínico José Augusto Rinck explica que a imunoterapia vinha sendo adotada em câncer de rim, mas os benefícios aos pacientes se tornaram mais consistentes com os medicamentos recentes. “A história se transformou nos últimos anos, inicialmente com terapia-alvo e agora com a combinação de imunoterapias desta nova geração”, destaca o médico.

 No estudo Check-Mate 214, um total de 1.096 pacientes foi dividido em dois grupos. Um deles recebeu o tratamento com nivolumabe associado com ipilimumabe (550 pacientes) e outro grupo recebeu sunitinibe (546 pacientes). Os pacientes foram classificados como sendo de baixo, intermediário ou alto risco de morte. Após dezoito meses, entre todos os pacientes com risco intermediário e alto, estavam vivos 75% dos que foram tratados com imunoterapia, com taxa de resposta de 42%. No mesmo período, 60% dos pacientes ainda vivos que receberam sunitinibe, apenas 27% apresentaram taxa de resposta.

Outro dado importante é que essa resposta se mostrou completa em 9% dos pacientes que receberam as imunoterapias, ou seja, não houve recidiva da doença no período estudado, dado muito superior ao 1% registrado com sunitinibe. Por sua vez, entre os pacientes com risco baixo, o trabalho mostrou que a taxa de resposta foi maior com sunitinibe isolado, embora não tenha refletido em um aumento estatisticamente significativo de sobrevida. Novos estudos estão investigando agora o papel da combinação das duas imunoterapias associadas com sunitinibe e outras terapias-alvo para todos os graus da doença. “Essa estratégia permitiria atacar o tumor no alvo específico e, ao mesmo tempo, ativar o sistema imunológico para reconhecer a doença e combatê-la”, explica Rinck.

Moléculas que valem um Nobel

O Prêmio Nobel de Medicina de 2018, anunciado em 1º de outubro, foi para os cientistas James Allison, do MD Anderson, dos Estados Unidos e Tasuku Honjo, da Universidade de Kyoto, no Japão, pela descoberta quanto ao papel das moléculas CTLA-4 e PD-1 no sistema imunológico. São justamente essas duas moléculas as protagonistas da combinação de imunoterapias para câncer de rim. O nivolumabe ativa o sistema imunológico, potencializando assim as respostas das células T (linfócitos), responsáveis por defender o organismo, inclusive, contra tumores. Essa ativação bloqueia a atividade das proteínas PD-1. Processo semelhante acontece com o ipilimumabe, mas a molécula envolvida no processo é a CTLA-4. “Essas duas proteínas são desligadas e as células de defesa, ativas, combatem o tumor”, ressalta José Augusto Rinck.

Quinto pilar do tratamento do câncer

Se somando à cirurgia, radioterapia, quimioterapia e terapias-alvo, dentre elas os inibidores de tirosina quinase, os medicamentos imunoterápicos são considerados o quinto pilar do tratamento oncológico. Atento a essa revolução, o A.C.Camargo dispõe de um Centro de Imunoterapia que conta com uma equipe multiprofissional de cerca de 70 profissionais, incluindo oncologistas clínicos, cirurgiões oncológicos, patologistas, radiologistas, radioterapeutas, pneumologistas, dermatologistas, endocrinologistas, e equipes de atendimento crítico e de emergência, além de enfermeiros especialistas dedicados a esses pacientes. Com experiência de sete anos na utilização da imunoterapia, cerca de 500 pacientes já foram tratados na Instituição.

O objetivo do Centro de Imunoterapia, que é integrado ao Grupo de Imuno-Oncologia Translacional da Instituição, é atuar com protagonismo nos principais estudos clínicos mundiais que buscam novos medicamentos que visam melhorar as taxas de resposta e a qualidade de vida dos pacientes. Com a atual combinação de imunoterapia para câncer renal, avalia José Augusto Rinck, observa-se que os pacientes têm diferentes perfis imunológicos. “Estamos avaliando quem responde ao tratamento e por quanto tempo essa resposta se sustenta”.

Avaliar os efeitos colaterais é outra importante premissa. “Ao interferir no sistema imunológico, o paciente pode ter inflamações no intestino, pulmão, nas glândulas hormonais (adrenal, tireóide, hipófise), demandando, inclusive, reposição hormonal. A boa notícia é que o atual cenário de imunoterapias tem apresentado baixos níveis dessas complicações”, comemora Rinck.  

Saiba mais sobre o câncer renal

Mais prevalente em homens a partir dos 60 anos, o câncer de rim é uma doença rara. Silenciosa, não costuma apresentar sintomas em sua fase inicial, fazendo com que muitos pacientes descubram o tumor por acaso – por meio de um exame de imagem durante um check-up de rotina ou para investigar outras suspeitas. Com isso, conforme dados do SEER, levantamento do ministério de saúde dos Estados Unidos, cerca de 60% dos diagnósticos ocorrem com a doença ainda localizada no rim. Os principais focos de metástase são o pulmão, fígado, ossos, linfonodos, glândulas adrenais e cérebro. Os principais fatores de risco são doença policística renal, tabagismo, obesidade (principalmente entre as mulheres), hipertensão e doenças genéticas de Von Hippel-Lindau e esclerose tuberosa.

Na América Latina, a metástase é diagnosticada em cerca de 10% dos pacientes com câncer renal. É o que mostra o levantamento do Latin American Renal Cancer Group (LARC) junto a mais de 6 mil pacientes, que traz como principal investigador o cirurgião oncologista e Head de Urologia do A.C.Camargo Cancer Center, Stênio de Cássio Zequi. Além do Brasil, também integram o LARC pesquisadores de centros da Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, México, Espanha, assim como colaboradores dos Estados Unidos.