AACR 2019: estresse e câncer - o que a ciência está encontrando?

Publicado em: 22/04/2019 - 14:04:50
Pesquisa
Tratamento
Epidemiologia
Tumores Urológicos

Há muito tempo, a sabedoria popular diz que o estresse, como grandes decepções e perdas de entes queridos, poderiam causar câncer. Seria isso verdade?

Por Dr. Stenio de Cassio Zequi, head da Urologia no A.C.Camargo Cancer Center

No congresso da American Association for Cancer Research (AACR) (28/03 a 03/04) em Atlanta, nos Estados Unidos, especialistas do mundo inteiro debateram intensamente a relação entre estresse e câncer, saindo do empirismo (acreditar sem evidência), para procurar achados científicos que possam comprovar se realmente existem associações entre os dois. Muito se discutiu sobre o impacto do estresse psicossocial na vida diária de bilhões de pessoas em todo o mundo, frente diversas formas como dificuldades sociais, econômicas, políticas, restrições a liberdades e individualidade, preconceito, fome, excesso ou falta de trabalho, restrição de sono, lazer, entre outros. Também se levou em conta a importância das Desordens Pós-Traumáticas do Estresse (DPTS) presentes em pessoas que sofrem de sintomas decorrentes de situações estressantes pregressas.

Stress psicossocial e sua relação com o câncer 
Na terça-feira, 02/04, a Dra. Shelley S. Twroroger, do Lee Moffitt Cancer Center, em Tampa, Flórida, apresentou a palestra “Stress Psicossocial (SP) como um novo fator de risco para câncer, uma perspectiva epidemiológica”, na qual demonstrou estudos que verificaram elevados níveis de SP em pacientes com cânceres de próstata, ovário, cólon, cabeça e pescoço, além disso dissertou sobre tendências populacionais. O estresse desencadeia a liberação de cortisol, adrenalina e noradrenalina que resultam em aumentos dos triglicerídeos e elevação dos níveis de açúcar no sangue, colocando os pacientes em processo contínuo de inflamação, sob risco oncológico. Fora da América, o Dr. Faruk Mohamed, da Nigéria, apresentou no domingo, 31/03, características genômicas de homens negros com câncer de próstata do oeste da África (Nigéria, Camarões e arredores), nas quais foram encontrados altos níveis de cortisol nas amostras, sugerindo impacto do estresse psicossocial como fator de risco para esse câncer, detectados pela tecnologia de “Next Generation Sequencing”.

A Pesquisadora Melaine S. Flint, da Universidade de Brighton, no Reino Unido, apresentou, em 02/04, os diversos mecanismos biológicos de danos que os sistemas orgânicos sob estresse causam ao DNA e aos estágios precoces da carcinogênese (surgimento do câncer). Ela mostrou resultados em modelos de animais, submetidos a isolamento social e a restrições diversas, e também achados de amostras sanguíneas de pacientes humanos. Os dados demonstram que a Ciência começa a identificar marcadores de estresse: os estímulos causados desencadeiam a produção do ACTH (hormônio adrenocorticotrófico), que estimulam a produção de hormônios pelas glândulas adrenais e repercutem causando desordem metabólica, hiperglicemia, aumento do cortisol e dos lipídeos (gorduras) circulantes, interferindo na liberação de espécies reativas de oxigênio (radicais livres), que são muito tóxicos ao organismo, além de novos marcadores como espécies reativas de nitrogênio, as quais podem resultar em danos e mutações em nosso DNA.

Novo marcador de estresse: 8-OH-dg
Uma nova substância, o 8-OH-dg (8-oxo-desoxiguanosina), um marcador de estresse celular foi encontrado na urina de camundongos com tumores induzidos e de pacientes oncológicos. Quando aumentado, pode resultar em um maior número de mutações cancerígenas. Além disso, estudos em animais e em linhagens celulares de câncer de mama sugerem que os mecanismos de reparo do DNA, que nos protegem do câncer, podem também ser prejudicados por substâncias induzidas por estresse, bem como podem interferir negativamente no desenvolvimento de glândulas mamárias normais.  

E agora, o que fazer com as informações que temos?
Embora essas informações sejam muito estimulantes, temos de ter calma antes de elaborarmos conclusões definitivas. A Ciência ainda precisa identificar marcadores específicos do estresse psíquico, estabelecer reações de causa e efeito com o câncer, aprender a mensurar adequadamente essa substância e tentar medir os níveis de estresse em cada indivíduo, afinal, cada qual reage ao seu modo aos diferentes estímulos. Ainda não sabemos se o estresse influencia nos resultados do tratamento do câncer, entre muitas outras dúvidas. Ou seja, essas pesquisas não encerram o assunto, apenas abrem as portas para os cientistas se aprofundarem nessa fascinante área da Oncologia, que leva em conta não só o corpo, mas também a “alma” dos pacientes.

Os mecanismos de estresse foram fundamentais para o desenvolvimento da espécie humana, nos ajudando durante milhares de anos a escaparmos de situações de risco, a apresentarmos repostas rápidas a situações agudas vitais, e a recuperar a nossa saúde frente a doenças graves. Além disso, há o estresse positivo, aquele friozinho na barriga que sentimos quando encontramos alguém que amamos ou quando atingimos conquistas tão sonhadas; que nos impulsa ao sucesso profissional, pessoal, entre outros. Um pouco de estresse pode fazer bem, mas como tudo, se em excesso, não é saudável. 

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