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Biografias
Biografias

Nossa história foi construída com a participação de grandes nomes que dedicaram suas vidas para transformar em realidade o que hoje é considerado um dos três maiores centro de prevenção, tratamento, ensino e pesquisa no mundo.

Conheça alguns dos protagonistas dessa trajetória.

Antonio Cândido CamargoGrande mentor do fundador do Hospital do Câncer, Antônio Prudente, o cirurgião Antônio Cândido de Camargo presidiu a Associação Paulista de Combate ao Câncer - embrião do Hospital - até sua morte em 1947.

Desde a fundação da Faculdade de Medicina em 1913 até 1934, Camargo foi professor responsável pela cadeira de clínica cirúrgica - especialidade que seu aluno Antônio Prudente seguiria com paixão. O mestre transmitiu ao discípulo os primeiros ensinamentos na área, todo o conhecimento avançado que trouxe dos tempos de estudo em Genebra, na Suíça, e na capital austríaca, Viena.

Camargo pertenceu à equipe de Jacques Reverdin, um dos grandes nomes da cirurgia no século 20. No Brasil, foi pioneiro em neurocirurgia e trouxe importantes contribuições para o tratamento de tumores de cérebro e medula. Em sua homenagem, o Hospital do Câncer passou a se chamar A.C.Camargo Cancer Center.

Antonio Candido PrudenteAntônio Prudente Meireles de Moraes é natural de Piracicaba, interior de São Paulo. Nasceu em 8 de julho de 1906, filho do casal Antônio Prudente de Moraes (sexto filho do 1º Presidente da República civil do país) e Maria França Meireles, a Dona Marieta.

Antônio, o neto predileto de Prudente de Moraes, estava marcado para ser, no mínimo, um Senador da República. Preferiu a Medicina, mais precisamente a oncologia por meio de produção científica em busca da cura do câncer. Formou-se médico em 1928. Um ano depois defendeu tese sobre fibromiomas uterinos e foi aprovado com louvor. Seguiu em 1929, para Berlim, Alemanha. Queria aprender as novas técnicas cirúrgicas do professor Franz Keysser, um dos grandes nomes do século 20.

Bisturis elétricos. Essa era a síntese da técnica desenvolvida por Keysser e sua equipe. A eletro-cirurgia abriu novas possibilidades de tratamento de tumores até então considerados inoperáveis. A técnica consistia em utilizar não só o bisturi elétrico como também botões e placas elétricas com as quais se conseguia a coagulação dos tecidos tumorais.

Toda a família Prudente acompanhou Antônio em sua viagem. Foram para Berlim seus pais, as quatro irmãs e até uma empregada da casa. Só o irmão mais velho ficou. Já estava casado. Ao voltar da Alemanha, em 1931, Prudente tornou-se assistente de técnica cirúrgica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Mas já demonstrava a tendência a considerar o exercício da medicina como missão, ao assumir o cargo de cirurgião do Departamento Estadual de Lepra. Trabalhou até 1937 como cirurgião plástico no atendimento a pacientes devastados pela hanseníase.

Sua trajetória contra o câncer começou a tomar forma em 1933, quando uma série de cinco artigos de sua autoria foi publicada no jornal "O Estado de S. Paulo". Os artigos falam da perplexidade diante do mistério sobre a origem do câncer e técnicas de tratamento.

"(...) o câncer é uma moléstia de perfeita curabilidade, quando tratada a tempo" (...) afirmava Antônio Prudente, logo no primeiro artigo da série, publicado em 4 de setembro de 1933. Os fatores essenciais para o sucesso são "a educação do povo" e a necessidade de "diagnóstico precoce".

Um ano depois, em 1934, criou a Associação Paulista de Combate ao Câncer. A entidade teria como objetivos arrecadar recursos para combater o câncer, desenvolver campanhas públicas de educação, propiciar especialização por meio ensino para médicos, enfermeiros, dentistas e assistentes sociais e manter intercâmbio de programas com organizações similares no Brasil e exterior.

O primeiro presidente da APCC foi o antigo mestre de Prudente em cirurgia, Antonio Cândido de Camargo. Juntos, eles organizaram a base da luta contra o câncer. Juntos, começaram a construção do Instituto Central para tratamento dessa doença.

Carmen PrudenteDiz a história que o nome Porto Alegre é uma referência à alegria dos primeiros jovens casais açorianos que ali atracaram, por volta de 1750. A menina Carmen, nascida no natal de 1911, era filha de um desses casais pioneiros da capital gaúcha. A família se mudou para o Rio em 1934, acompanhando o pai, Heitor Annes Dias, que já estava na antiga capital federal, como médico pessoal do presidente Getúlio Vargas. Durante o Estado Novo eles moraram no bairro do Flamengo, próximo ao Palácio do Catete.

Ela era fluente em espanhol, italiano, inglês, francês e alemão. Já adulta, aprendeu a falar russo e japonês.

Carmen fez da sua união com Antônio Prudente um acontecimento, uma experiência transformadora. Passou a usar o sobrenome Prudente como um estandarte, uma marca da luta contra o câncer.

Ela escreveu 15 livros e cruzou os cinco continentes. Em todo lugar que fosse, proferia palestras perante auditórios categorizados de congressos, sociedades e organizações assistenciais sobre os feitos da Rede Feminina de Combate ao Câncer no Brasil. E todos os seus livros tinham renda revertida para as obras assistenciais do hospital.

Ela não teve filhos. Seu carisma e dedicação em prol do combate ao câncer conquistavam a todos.

Reconhecida internacionalmente por seu trabalho, Carmen recebeu em 1980, na Itália, o Prêmio Saint-Vincent de a "Mulher do Ano". Morreu em 3 de junho de 2001 e desde 2003 nomeia um Complexo Ambulatorial do A.C.Camargo especialmente voltado às mulheres em tratamento de tumores de mama e ginecológicos.

Celestino BorroulO médico e professor Celestino Bourroul, então vice-presidente do Conselho Social da Associação Paulista de Combate ao Câncer - embrião do Hospital do Câncer - assumiu a presidência da entidade em 1947, logo após a morte do então presidente Antonio Cândido de Camargo.

Bourroul foi também mestre fundador da Faculdade de Medicina, em 1913 e assumiu a cadeira de História Natural Médica. Um ano depois, tornou-se chefe da cátedra de Parasitologia.

Durante toda sua trajetória como médico chefiou a Medicina de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde, a cada manhã, examinava doente por doente de seu departamento naquele hospital.

Celestino Borrou criou em 1953 a Escola de Cancerologia do A.C.Camargo Cancer Center, pioneira na implementação do 1º programa de Residência Médica em Oncologia no Brasil. A escola já formou mais de mil oncologistas - meta atingida em 2010 - que atuam espalhados pelo Brasil e em países como Argentina, Bolívia, China, Colômbia, El Salvador, Equador, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela.

Fernando GentilFernando Gentil nasceu em 1920, numa abastada família de nove irmãos. Seu pai era um dos donos do Banco Frota & Gentil. Aos 16 anos, foi morar no Rio de Janeiro, onde cursou Medicina na Universidade Federal. Formou-se aos 21 anos. Nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, seguiu para os Estados Unidos e se especializou no Memorial Sloan-Kettering, de Nova Iorque. Lá, foi assistente até 1949 de George T. Pack, uma das maiores autoridades em cirurgia oncológica e um dos primeiros a acreditar na quimioterapia como forma de combate ao câncer.

Gentil retornou ao Brasil no final da década de 1940 e atuou como cirurgião no Hospital do Servidor Público, do Rio de Janeiro, até ser convidado por Antônio Prudente para chefiar o Departamento de Cirurgia Pélvica do A.C.Camargo Cancer Center.

Em meados dos anos 70, o cirurgião Fernando Gentil propôs uma cirurgia conservadora para o câncer da mama, que consistia em remover do lado do tumor, a glândula mamária, sempre que possível preservando-se o complexo areolomamilar associada à linfadenectomia axilar. Do lado oposto removia-se a glândula, preservando-se o complexo areolopapilar. Na reconstrução foram usadas próteses de silicone colocadas abaixo dos músculos peitorais. Os resultados estéticos deste procedimento são extremamente gratificantes, quando comparados à mastectomia radical.

Cinco anos depois, ao apresentar os primeiros resultados desta cirurgia em uma reunião científica no próprio A.C.Camargo, onde estavam presentes Umberto Veronesi, de Milão; Urbam, do MSKCC, Adair Eiras, do INCA e José B.S.Neto, do A.C.Camargo, defensores da cirurgia de Halsted - a cirurgia radical das mamas - Gentil foi deselegantemente criticado por eles. Mais tarde, recorda-se o oncologista Ademar Lopes, que trabalhou com Fernando Gentil e assumiu a direção da Cirurgia Pélvica após sua morte, os mesmos colegas começaram a adotar um procedimento cirúrgico até mais conservador, que é a quadrantectomia associada ao esvaziamento axilar.

Gentil, ao morrer em 1989, tinha mais de quatrocentos casos de cirurgia conservadora para o câncer de mama, representando assim, um marco na história deste tipo de cirurgia. Os primeiros sessenta casos desta cirurgia estão publicados no Journal of Surgical Oncology,14: 173-93 (1980). Ele nomeia, aqui no A.C.Camargo, um Complexo Ambulatorial direcionado ao tratamento de tumores como próstata, pênis, bexiga, estômago, intestino, esôfago, dentre outros.

Jorge FairbanksJorge Fairbanks Barbosa nasceu em 1915, em São Simão, interior de São Paulo. Filho e irmão de médicos, é o cirurgião criador da especialidade de Cirurgia de Cabeça e Pescoço no Brasil, implantada por ele a partir de 1952, quando o A.C.Camargo Cancer CEnter ainda nem tinha sede própria, e funcionava como Instituto Central do Câncer no Hospital Santa Cruz, em São Paulo.

O sobrenome Fairbanks pertence a uma imemoriável linhagem de desbravadores. Estava na lista de 31 passageiros do Mayflower, legendária embarcação que deixou a Inglaterra para aportar nos Estados Unidos. Quase dois séculos depois, em 1825, um norte-americano descendente dos pilgrims, George Edward Fairbanks, desembarcava no Brasil. Era um médico que na Bahia integrou o Conselho de Salubridade Pública.

Jorge diplomou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1939. Otorrinolaringologista, ele foi um dos primeiros médicos a realizar cirurgias para surdez em São Paulo. Nada se compararia, no entanto, ao êxito alcançado por Fairbanks no Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, que chefiou de 1953 a 1968, no então Hospital do Câncer. A padronização das técnicas operatórias na especialidade não existia. Fairbanks as criou.

Fairbanks publicou mais de cem trabalhos em revistas e livros técnicos de vários países. Entre as publicações no Brasil e exterior, destacam-se "Tratamento Cirúrgico dos Tumores de Cabeça e Pescoço", editado por Grune & Stratton, em Nova Iorque em 1974, então um tratado definitivo sobre as cirurgias na especialidade; e "Esvaziamentos Cervicais e Seus Problemas", do Fundo Editorial Prócienx, 1962.

Fundou em 1967 a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, tendo sido seu primeiro presidente. Era membro da Associação Paulista de Medicina; membro titular da Academia de Medicina de São Paulo; Fellow of the International College of Surgeons; presidente do Departamento de ORL da Associação Paulista de Medicina; Foreign corresponding member of The Society of Head and Neck Surgeons; Fellow du College International des Cirurgiens (França).

Em julho de 1977, após sofrer uma cirurgia no coração, Jorge Fairbanks Barbosa desenvolveu o chamado "pulmão de choque", uma complicação pós-operatória fatal naqueles tempos. Passou uma semana inteira na UTI, lúcido, escrevendo bilhetes, pensando em discutir soluções para o seu caso com os médicos de plantão. Daquela vez não foi possível. Morreu aos 62 anos, no dia 4 de agosto de 1977. Em sua homenagem, o A.C.Camargo Cancer Center abriga um Complexo Ambulatorial com seu nome, voltado principalmente ao tratamento de tumores de cabeça e pescoço.

Humberto TorloniEle dizia que não tinha coragem para encarar uma cirurgia. Mas como não definir como corajoso um homem que aceitou ser patologista por sugestão do médico Antônio Prudente e, já como primeira missão, aprendeu a lavar e fechar cadáveres nas aulas de autópsia? E que, pouco tempo depois, entrou num navio em Santos até Nova York, e seguiu de trem para Saint-Louis para aprender tudo sobre a anatomia patológica? Voltou dos Estados Unidos com um catálogo dos equipamentos mais modernos de então. E com o sonho de transformar o novo hospital, recém-inaugurado, num modelo de excelência.

A vida do Dr. Humberto Torloni misturou-se à vida do A.C.Camargo Cancer Center desde a sua fundação, em 1953. Na verdade, desde antes: Dr. Torloni ajudou a fundar o hospital, participando de uma gincana para arrecadar dinheiro para a sua construção. Ganhou a gincana, o apreço do Dr. Antonio Prudente, um emprego e a confiança absoluta para propor ideias novas. E como propôs: desenhou mesas de autópsia feitas em mármore; montou um impressionante arquivo de fotografias de lesões para conhecimento dos médicos; criou o arquivo de registros dos pacientes – ou seja, catalogou a história do câncer no nosso hospital. Fundou o nosso Departamento de Anatomia Patológica, e seu nome batiza a EPOAHT - Escola de Patologia Oncológica Avançada Humberto Torloni, fundada em 2014. Contribuiu para a história do câncer no país.

Nascido em 1924 na minúscula Itapuí, quinto de dez filhos de uma família veramente italiana, ele optou pela Medicina por simplicidade – não sabia o que fazer e achou que seria interessante seguir a carreira do irmão mais velho, médico. Acabou cursando a Escola Paulista de Medicina (hoje Unifesp) de 1942 a 1948.

Revelou-se a sua enorme vocação. O Dr. Torloni foi fundador da Sociedade Brasileira de Anatomia Patológica, médico da Organização Mundial da Saúde e da Organização Pan Americana de Saúde, onde coordenou a classificação internacional de Doenças Oncológicas durante sete anos. Foi Diretor da Divisão Nacional do Câncer do Ministério da Saúde, Diretor do Instituto Ludwig de pesquisa contra Câncer, Diretor do Hospital do Câncer, onde depois de deixar a diretoria continuou a trabalhar como médico. Existem centenas de trabalhos com o seu nome em revistas especializadas tanto nacionais como internacionais.

Pequenino, bem-humorado, de uma lucidez e brilhantismo até os últimos meses de sua vida, o Dr. Torloni inspirou gerações de médicos, pesquisadores, qualquer um que teve o privilégio de conversar com ele tanto aqui dentro, como na história da medicina brasileira. Mais do que uma mente brilhante, era um agregador. Construía pontes, como diz o Dr. Luiz Paulo Kowalski, Diretor do Departamento de Cabeça e Pescoço. A vida do Dr. Torloni, é sim uma aula de coragem e, como de costume entre as pessoas grandes, de generosidade.

Fica aqui sua última mensagem para quem quer ser médico – mas que vale para todas as pessoas: “Não tome decisões sobre a vida da criatura humana sem ter a certeza que seria a mesma coisa que você faria se fosse o paciente. Coragem. Paciência. Divida suas dúvidas. O ser humano merece você, tanto para te ensinar quanto para você nos salvar”.

Ricardo BrentaniEstava no A.C.Camargo desde 1984, quando o megaempresário suíço Daniel Ludwig ali instalou a filial brasileira do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer e escolheu Brentani para dirigi-la, tudo por sugestão do pesquisador Humberto Torloni. Em 1990, a convite do presidente do A.C.Camargo, José Ermírio de Moraes Filho, e de Dona Carmen Prudente, fundadora da instituição nos anos 50, Brentani assumiu a condução do Hospital.

Nestes 21 anos promoveu uma revolução no A.C.Camargo. Seguindo o sonho de Antônio Prudente e sua esposa Carmen, que por duas décadas uniram esforços desmedidos para erguer a instituição oncológica pioneira no país, Brentani formou inúmeros cientistas e médicos que mudaram a história do câncer no Brasil. E inseriu a nação no cenário mundial da pesquisa oncológica e da genômica. Orgulhava-se em dizer que "este hospital alcançou índices de sucesso no tratamento do câncer só comparáveis aos dos principais centros oncológicos internacionais".